Uma Poética do Acaso e do Humor

Angelo Oswaldo
(extraído do caderno Pensar do jornal O Estado de Minas)

“Eu sou pintor, eu prego meus quadros”, disse Kurt Schwitters aos dadaístas de Berlim, apresentando-lhes suas assemblages. Luiz Philippe Carneiro de Mendonça também prega seus quadros. Colecionador de achados curiosos, emprega as peças recolhidas nas assemblages e objetos que nos apresenta. Acaso e criatividade se aliam. Luiz Philippe garimpa com o olhar. O seu mais antigo trabalho, presente na mostra, surgiu de uma velha pá enferrujada, encontrada casualmente na antiga mina inglesa de Cata Branca, em Minas Gerais.

Há tempos, em Belo Horizonte, o artista agora radicado no Rio de Janeiro pintou ex-votos à maneira das tábuas votivas do ciclo do ouro. No ambiente familiar, não lhe faltaram referências muito especiais da cultura e da opulência da Minas do passado, que via ao mesmo tempo sucumbirem sob o impacto das realidades esmagadoras da contemporaneidade. Estariam aí fontes e matrizes da obra atual.

Quando criança, ele conviveu e trabalhou com Frans Krajcberg na região de Itabirito, o que lhe valeu o gosto e o conhecimento dos minérios, terras e pigmentos presentes nos trabalhos. É reconhecível, ao mesmo tempo, a experiência do artista no mundo do design, do qual traz uma informação decisiva para a construção das assemblages, No processo de concepção e fatura dos objetos, esse conhecimento dá suporte ao olhar e ao gesto que transgridem a coisa vista no sentido de torná-la uma obra de arte.

O    trompe-l’oeil barroco informa o prazer lúdico das assemblages. Humor de um lado e nonsense de outro atravessam o perímetro das obras para aguçar-lhes o núcleo de atração. Uma dimensão outra que a do visível e do cotidiano é o que o surrealismo persegue: Luiz Philippe a alcança, ao transitar, através de refinada manufatura, do estranhamento que a operação semiótica produz, inquietante e serena, contundente mas silenciosa, para o encantamento do objeto em si. Aquele sentimento indizível, que a obra de arte, exaurida, estaria buscando hoje recuperar na crispação de performances e instalações, está próximo, e é pelo humor que o espectador começa a sintonizá-lo.

O    artista não se sujeita à classificação simplista de pertencer ou não a determinado código, porque palmilha vertentes variadas com uma liberdade e uma inventiva que lhe permitem escapar a ciladas e prisões de linguagem e morfologia. Se um travo de estarrecimento alguma vez se manifesta, é exatamente porque o autor, incursionando em direções distintas, instigado por imagens do seu museu imaginário, teria atravessado uma situação de angústia tal como pouco antes jogava jocoso com um ready-made, na alegria do puzzle finalmente completado. Alternam-se o ameno e o amargo, sem dilemas doridos. Prevalece a sensação de um bem curtido diálogo do criador com os materiais que amealha e o conjunto das obras irradia o frescor da forma genuína.

Angelo Oswaldo é escritor e  jornalista,
ex-Secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais
e atual Prefeito de Ouro Preto – MG

0 Responses to “Uma Poética do Acaso e do Humor”



  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s





%d bloggers like this: